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Papa alerta que inteligência artificial ameaça o pensamento crítico e a verdade na comunicação

  • Writer: William Barreto
    William Barreto
  • 6 days ago
  • 3 min read

Em mensagem pelo Dia Mundial das Comunicações, Leão XIV critica algoritmos, denuncia simulações de relações humanas e cobra responsabilidade de plataformas, governos e mídia



Em mensagem divulgada neste sábado (24), por ocasião do 60º Dia Mundial das Comunicações, o papa Leão XIV fez um alerta contundente sobre os impactos da inteligência artificial na comunicação, nas relações humanas e na própria noção de verdade. Sem recorrer a tom institucional ou celebratório, o pontífice defendeu a preservação da “voz” e do “rosto” humanos como elementos centrais da dignidade da pessoa e advertiu para os riscos de uma delegação acrítica do pensamento, da criatividade e do discernimento às máquinas.


Ao longo do texto, o papa sustenta que o rosto e a voz não são apenas traços biológicos, mas expressões singulares da identidade humana e fundamentos do encontro entre as pessoas. Para ele, a simulação desses elementos por sistemas de inteligência artificial representa uma mudança estrutural na comunicação, com efeitos que ultrapassam o campo tecnológico e atingem o plano antropológico.


Segundo Leão XIV, algoritmos projetados para maximizar engajamento nas plataformas digitais tendem a privilegiar reações emocionais rápidas, em detrimento da reflexão, do diálogo e da escuta. Esse modelo, afirma, contribui para a polarização social, fragiliza o pensamento crítico e favorece a formação de bolhas informativas. O papa também criticou a confiança excessiva na inteligência artificial como fonte supostamente neutra e completa de conhecimento, o que, em sua avaliação, pode corroer a capacidade humana de análise, interpretação e criação de sentido.


A mensagem dedica atenção especial ao uso de sistemas capazes de produzir textos, imagens, músicas e vídeos em larga escala. O pontífice alerta para o risco de esvaziamento da indústria criativa humana e para a redução de obras artísticas e jornalísticas a meros insumos para o treinamento de máquinas. Nesse contexto, defende que a questão central não é o potencial técnico da inteligência artificial, mas o modo como a humanidade escolhe utilizá-la, sem abdicar do esforço intelectual e da responsabilidade pessoal.


Outro ponto de destaque é a dificuldade crescente de distinguir interações humanas de conteúdos gerados por agentes automatizados, como bots e influenciadores virtuais. O papa observa que chatbots baseados em grandes modelos linguísticos têm demonstrado capacidade de persuasão discreta e personalizada, simulando empatia e vínculo emocional. Para ele, esse tipo de antropomorfização pode ser enganoso, sobretudo para pessoas em situação de vulnerabilidade, ao substituir relações humanas reais por interações artificiais.


Leão XIV também chama atenção para os vieses presentes nos sistemas de inteligência artificial, moldados pelas visões de mundo de seus desenvolvedores e pelos dados utilizados em seu treinamento. A falta de transparência nos algoritmos, associada à concentração de poder em poucas empresas de tecnologia, é apontada como um fator que pode reforçar desigualdades sociais, manipular percepções da realidade e fragilizar a confiança pública na informação.


No campo do jornalismo, o papa foi direto ao afirmar que a informação é um bem público e não pode ser subordinada a estratégias algorítmicas voltadas exclusivamente à retenção de atenção. Defendeu a identificação clara de conteúdos gerados ou manipulados por inteligência artificial, a proteção da autoria e da propriedade intelectual e a centralidade da verificação rigorosa das informações. Para ele, a credibilidade não se constrói por engajamento artificial, mas por precisão, transparência e compromisso com a verdade.


Como resposta aos desafios apresentados, o pontífice propôs uma “aliança” entre humanidade e tecnologia, sustentada em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação. A responsabilidade, afirmou, deve ser compartilhada entre empresas de tecnologia, desenvolvedores, legisladores, reguladores e meios de comunicação. A cooperação, por sua vez, exige a participação de diferentes setores da sociedade na construção de uma governança ética da inteligência artificial. Já a educação é apontada como elemento-chave para fortalecer o pensamento crítico e a alfabetização midiática, informacional e digital em todos os níveis de ensino.


Ao final da mensagem, Leão XIV reforçou que a inovação tecnológica deve estar a serviço da comunicação como expressão profunda da humanidade, e não como substituta da presença, da alteridade e do encontro. A reflexão foi assinada no Vaticano, na memória de São Francisco de Sales, tradicionalmente associado à comunicação e ao jornalismo na Igreja Católica.

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